“Internacionalização” da Amazônia: realidade ou utopia?



“Internacionalização” da Amazônia: realidade ou utopia?

Miguel Daladier Barros

“A soberania e o respeito de Portugal impõem que nesse lugar se erga um forte, e isso é obra e serviço dos homens de El-Rei nosso Senhor e, como tal, por mais duro, por mais difícil e por mais trabalho que isso dê ... é serviço de Portugal. E tem de se cumprir!” (D. Luiz de Albuquerque Mello Pereira e Cáceres, 4º Capitão General da Capitania de Mato Grosso – Junho de 1776)

No momento em que o Brasil enfrenta uma nova possibilidade de novo “apagão” no setor energético, somado aos freqüentes escândalos em todos os níveis do poder que agridem os mais caros valores do cidadão e da sociedade brasileira (mensalão, sanguessugas, Correios, “caixa dois” dos partidos políticos, caça-níqueis, venda de sentenças por membros do Judiciário, “Renangate”, gastos com cartões de crédito corporativos por funcionários do alto escalão do Executivo etc..), o governo dos Estados Unidos, através da sua Agência de Desenvolvimento Internacional (USAID), lançou no final de 2006 um projeto denominado “Iniciativa para Conservação da Bacia Amazônica” (ABCI, na sigla em inglês), com previsão de financiamento de US$ 65 milhões (cerca de R$ 113,7 milhões) em cinco anos. Tais recursos, já aprovados pelo Congresso norte-americano em 2004, seriam destinados a projetos de “fortalecimento e articulação política e reforço material das diversas Organizações Não-Governamentais (ONG’s) ambientalistas, de defesa dos povos indígenas e instituições de pesquisa que atuam no Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia e Equador”[1].
Essa estratégia, ou nova investida do governo dos Estados Unidos através da USAID com a participação das similares governamentais do Canadá, Reino Unido, Holanda dentre outros, não esconde o seu objetivo principal de coordenar as ações de grupos denominados “ambientalistas” e “indigenistas” nacionais e estrangeiros, alocando recursos e instrumentos de “governança ambiental” para o controle efetivo da região amazônica nos países acima citados. Na realidade, o projeto traz consigo o claro objetivo de fortalecer grupos anglo-americanos hegemônicos aliados a ONG’s nacionais e estrangeiras, através de recrutamento de povos indígenas, “populações tradicionais” e ONG’s para criar uma rede ou “exército de ocupação pós-moderno” sob o controle e a serviço de um esquema denominado de “governo mundial”.
Por “governança ambiental”, deve-se entender o controle efetivo dos territórios demarcados como reservas indígenas, sob intensas pressões internacionais, para obstaculizar o desenvolvimento do Brasil e seus vizinhos, insidiosamente apresentado como ameaça à integridade do meio ambiente. O argumento central do projeto (ABCI) é o de que os enormes e desconhecidos recursos da Bacia Amazônica podem servir como uma base sólida para o desenvolvimento regional, mas são ameaçados por usos não sustentáveis associados com a agricultura, pecuária, exploração madeireira, mineração, exploração de petróleo e pesca. Essas ameaças, por sua vez, são intensificadas por outras forças, como o crescimento populacional, o desenvolvimento infra-estrutural e a expansão dos mercados de commodities[2].
A bem da verdade, essa “estratégia”, ou nova investida do governo dos Estados Unidos através da USAID com a participação das similares governamentais do Canadá, Reino Unido, Holanda e outros, teve início efetivamente na década de 70 e não representa novidade na política norte-americana para o Continente Sul Americano. Sabe-se que um propósito idêntico já se encontrava detalhado no hoje célebre memorando secreto do Conselho de Segurança Nacional, NSSM-200 (“National Security Study Memorandum-200”), elaborado por orientação do então Secretário de Estado americano Henry Kissinger, em 1975, e apenas desclassificado no início da década passada. Os autores do documento propunham, em resumo, o controle do crescimento populacional do Brasil e de outras 13 “nações-chave”, alegando que ele implicaria em um uso descontrolado dos recursos naturais nacionais – minerais, energéticos etc. –, os quais, na visão hegemônica dos autores, seriam fundamentais para a prosperidade futura dos EUA e seus aliados. Nesse sentido, o crescimento demográfico brasileiro representava uma “ameaça” aos interesses nacionais norte-americanos.[3]
Como se pode deduzir, a estratégia (ABCI) desenvolvida pela USAID, trata-se, na realidade, de uma nova etapa de “internacionalização” da Amazônia, desenvolvida e apoiada na já consolidada fase de demarcação de vastas reservas naturais indígenas na região, com preponderância a partir do final da década de 80 por forte pressão internacional (liderados pelos Estados Unidos, Reino Unido e França), cujas áreas são proporcionalmente muito superiores às recomendadas pelos interesses nacionais. Assim, a partir de 1992, durante a “Convenção Sobre a Diversidade Biológica”, conhecida por “ECO-92”, Rio de Janeiro, Brasil, ficou estabelecido mediante pressões dos países presentes ao evento, a demarcação da “Reserva Indígena Yanomami”, que desencadeou o processo de criação de grande parte das Terras Indígenas (TI) e Unidades de Conservação (UC) no território brasileiro, principalmente na Região Amazônica. Para se ter uma visão desse preocupante fato, apenas no Brasil, as chamadas “reservas indígenas” ocupam cerca de 1,1 milhão de quilômetros quadrados, ou seja, cerca de 13% do território nacional, habitadas por pouco mais de 400 mil índios. Em termos de comparação, toda a Região Sudeste, a mais populosa e desenvolvida do País, com cerca de 75 milhões de habitantes, não ocupa mais do que 928 mil quilômetros quadrados, o que equivale a cerca de 10,9% do nosso território.
A velha cobiça internacional sobre a Amazônia brasileira, desta feita através da USAID com o recente projeto (ABCI), sob alegação de causas “nobres” e “humanitárias”, trata-se na realidade de uma interferência ostensiva e sem-cerimônias em pleno século XXI nas políticas desenvolvidas pelo Governo brasileiro que influenciarão, de forma decisiva, as perspectivas de desenvolvimento da Região Norte que disputa com o sofrido Nordeste brasileiro o título de a mais atrasada do País. Um fato que chama a atenção é a inexplicável “vontade humanitária” demonstrada por milhares de ONG’s, conforme afirma o General-de-Exército Maynard Marques Santa Rosa, Secretário de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, segundo ele: “... existem mais de 100 mil ONG’s de todos os tipos e interesses atuando sem que o Estado brasileiro tenha controle sobre elas.”[4], onde muitas delas atuam na Amazônia brasileira em comparação com as poucas que se propõem a doar sua “ajuda humanitária” à população sofrida do Nordeste brasileiro. O quadro abaixo intitulado ONG’s: Você consegue entender isso?” demonstra, por si só, o verdadeiro desiderato dos governos dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Holanda, e outros, e das ONG’s sob seus controles, de criar o já citado esquema denominado de “governo mundial”, cujo objetivo final é a “internacionalização” da Amazônia.   
“ONG’s: Você consegue entender isso?”

 Veja abaixo a tabela da vergonha:

Tabela
Vítimas da  seca
Índios da Amazônia (*)
Quantos?
10 milhões
230 mil
Sujeitos à fome?
Sim
Não
Passam sede?
Sim
Não
Subnutrição
Sim
Não
ONG’s estrangeiras ajudando  
Nenhuma
350 (**)
Obs.: - (*) Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): entre 0,487 e 0,672 (considerado baixo);
           - (**) Número aproximado de ONG’s estrangeiras atuando em proveito das população indígena da Amazônia.
A “tabela da vergonha” acima, mostra com bastante clareza que enquanto na Amazônia brasileira atuam cerca de 350 ONG’s em proveito de pouco mais de 230 mil índios, não sujeitos à fome, sede e subnutrição, de outro lado, no sofrido Nordeste brasileiro, onde existem cerca de 10 milhões de vítimas da seca (população 434,7% maior), todos sujeitos à fome, sede e subnutrição, não há presença de ONG’s estrangeiras oferecendo sua “ajuda humanitária”. A explicação para este absurdo: a Amazônia tem ouro, nióbio, petróleo, as maiores jazidas de manganês e ferro do mundo, diamante, esmeraldas, rubis, cobre, zinco, prata, a maior biodiversidade do planeta (o que pode gerar grandes lucros aos laboratórios estrangeiros) e outras inúmeras riquezas que somam US$ 14 trilhões (cerca de R$ 24,5 trilhões). Enquanto isso, o Nordeste brasileiro não tem tanta riqueza, por isso não há ONG’s estrangeiras ajudando os famintos nesse pedaço esquecido do nosso Brasil. E ainda, há mais ONG’s estrangeiras “indigenistas” e “ambientalistas” na Amazônia brasileira do que em todo o continente africano, que sofre com a fome, sede, guerras civis,  epidemias de AIDS e Ebola, os massacres de grupos tribais e as minas terrestres. Nessa mesma linha de raciocínio, pergunta-se: por quê tanta “vontade” das ONG’s estrangeiras pela Amazônia, se há tantos problemas de maior gravidade como os terremotos em El Salvador e na Índia, a catástrofe em que vive a África, a seca no Nordeste brasileiro, a epidemia de AIDS e Ebola?
A investida estrangeira de “internacionalização” da Amazônia brasileira é bastante antiga e tem seu caráter ostensivo, como nos revelam os vários pronunciamentos em encontros nos foros mundiais ou através da imprensa internacional de chanceleres dos países que formam o esquema do chamado “governo mundial”, citados a seguir.
A cobiça sobre a Amazônia brasileira não é fato recente, ao contrário, remonta a épocas passadas, haja vista que logo após a Independência do Brasil, em 1822, o Comandante Matthew Maury, Chefe do Observatório Naval de Washington (EUA), em 1850, defendia veladamente a “livre navegação internacional no Rio Amazonas”, sob o argumento de que o rio deveria ser incorporado ao status do Direito Marítimo. Outro acontecimento digno de preocupação à soberania do Brasil encontra-se materializada na “proposta” feita pelo Chanceler alemão Oswald de Richtöfen, ao Barão do Rio Branco, quando de sua visita a Berlim, Alemanha, em 1902: “Seria conveniente que o Brasil não privasse o mundo das riquezas naturais da Amazônia”.
Entretanto, a declaração mais preocupante sobre o tema foi a do Ex-Presidente da França, François Mitterrand, em 1989: “O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia”. Como se vê, o Ex-Presidente François Mitterrand introduziu no vocabulário do Direito Internacional Público o oportuno e conveniente conceito de “soberania relativa”, “soberania limitada” ou “soberania restrita”, este amplamente difundido e aceito pelos grupos que se empenham em impor estruturas de “governança global” sobre os Estados nacionais soberanos, principalmente os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento.
Na esteira desse novo conceito, em novembro de 2002, já em plena era das intervenções unilaterais do governo “neoconservador” do presidente George W. Bush, o então Secretário da Defesa americano Donald Rumsfeld apresentou, na “V Conferência de Ministros da Defesa das Américas”, em Santiago do Chile, o conceito de “soberania efetiva”, significando a necessidade de intervenções em áreas onde o Estado nacional não pudesse, por um motivo ou outro, exercer um pleno controle territorial. Como se pode inferir, o conceito de “soberania efetiva” é uma variante disfarçada do princípio de “soberania relativa”, “soberania limitada” ou “soberania restrita”, introduzido por Mitterrand a partir do final da década de 80.
Sobre o mesmo tema surgiram vozes importantes vindas da Inglaterra, país que juntamente com os Estados Unidos encabeçam o movimento de “internacionalização” da Amazônia brasileira. Nessa mesma linha de raciocínio, a então Primeira Ministra Margareth Tatcher, em 1983, assim se pronunciou: “Se países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas externas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas”. Não menos incisivo sobre o tema em questão foi o pronunciamento do também Primeiro Ministro da Inglaterra, John Major, em 1992: “As nações desenvolvidas devem estender o domínio da lei ao que é comum de todos no mundo. As campanhas ecologistas internacionais sobre a região amazônica estão deixando a fase propagandista para dar início a uma fase operativa, que pode, definitivamente, ensejar intervenções militares diretas sobre a região”.
No mesmo diapasão, da terra do Tio Sam surgiram vozes de peso que se somaram ao coro dos países que pregam ostensivamente a “internacionalização” da Amazônia brasileira. Durante o período em que desempenhou a função de Secretário de Estado americano, Henry Kissinger, mentor intelectual do célebre memorando secreto do Conselho de Segurança Nacional, NSSM-200 (“National Security Study Memorandum-200”), de 1975, pregava em suas andanças nos foros mundiais o emprego de métodos explícitos de agressão sobre os países amazônicos. Assim, em 1994, deu a seguinte declaração que soou como uma bomba em relação à soberania das Nações que formam a Bacia Amazônica: “Os países industrializados não poderão viver da maneira como existiram até hoje se não tiverem à sua disposição os recursos naturais não renováveis do planeta. Terão que montar um sistema de pressões e constrangimentos garantidores da consecução de seus intentos”. Como se pode deduzir, mesmo para um leigo no assunto, tais palavras são bastante claras e diretas. O mesmo posicionamento beligerante surgiu do seu compatriota General Patrick Hugles, então Chefe da Agência de Inteligência de Defesa Americana (DIA), em palestra proferida aos acadêmicos no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), em 16 de abril de 1998: “Caso o Brasil resolva fazer um uso da Amazônia que ponha em risco o meio ambiente nos Estados Unidos, temos de estar prontos para interromper esse processo imediatamente”.
Nada menos suave sobre a necessidade de “internacionalização” da Amazônia brasileira, foram as contundentes palavras do então Vice-Presidente dos Estados Unidos, Al Gore, em 1989: “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós”. Com tal posicionamento, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2007, mostra-se não tão pacífico e dócil como parece, ao encantar o mundo com seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”[5] sobre os perigos do aquecimento global para a sobrevivência da humanidade.
Na mesma linha, devem ser consideradas as declarações de autoridades de outras potências do Hemisfério Norte a respeito da soberania do Brasil sobre a Amazônia, como a do então comissário de Comércio da União Européia (UE) e atual Diretor-Geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), Pascal Lamy. Em 21 de fevereiro de 2005, em uma palestra realizada em Genebra, Suíça, sobre o tema “As lições da Europa para a governança global”, Lamy afirmou que a floresta amazônica e as demais florestas tropicais do planeta deveriam ser consideradas “bens públicos mundiais” e submetidas a uma “gestão coletiva pela comunidade internacional”.
Na seqüência de posicionamentos sobre o tema, ainda mais sem-cerimônia foi a recente proposta do Ministro do Meio Ambiente do Reino Unido, David Miliband, para uma “privatização completa da Amazônia”, alegadamente, para preservar a floresta como uma proteção contra as emissões de dióxido de carbono que, supostamente, estariam provocando o aquecimento global. A sugestão, feita em uma conferência sobre mudanças climáticas em Monterrey, México, no final de setembro de 2006, envolveria a “aquisição” de grandes áreas da Floresta Amazônica por cidadãos e grupos privados, de modo a formar uma vasta “área protegida”, cuja administração seria confiada a uma comissão internacional. O “esquema”, segundo consta, teria o apoio do então Primeiro-Ministro Tony Blair, porque “capturaria a imaginação do mundo” e “uniria a comunidade internacional”. Em 01.10.2006, em entrevista ao jornal “Daily Telegraph”, Miliband admitiu que a idéia poderia suscitar questões de soberania com o Brasil, porém, acrescentou ratificando seu posicionamento anterior: “Obviamente, existem problemas de soberania, mas o desmatamento é um assunto enorme ... e qualquer plano, mesmo que seja radical, é digno de ser avaliado”.
Se não bastassem os posicionamentos dos países acima citados, a “internacionalização” da Amazônia é também assunto de interesse das entidades religiosas, principalmente as européias. O Conselho Mundial de Igrejas Cristãs, sediado em Genebra, Suíça, expediu entre 1991/92, as seguintes diretrizes aos seus missionários sediados no Brasil: “A Amazônia total, cuja maior área fica no Brasil, Colômbia e Peru, é considerada por nós como patrimônio da humanidade. A posse dessa imensa área pelos países mencionados é meramente circunstancial” e, ainda: “É nosso dever garantir a preservação do território da Amazônia e de seus habitantes aborígenes para o desfrute pelas grandes civilizações européias”.
Diante desse ostensivo interesse das nações estrangeiras sobre a “internacionalização” da Amazônia, o Governo brasileiro pouco ou quase nada tem feito em matéria de políticas públicas voltadas para a efetiva ocupação dessa rica, grandiosa e importante região de nosso território. No mundo jurídico, vale ressaltar a voz competente da Desembargadora Federal do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF – 1 ª Região), Dra. Selene Maria de Almeida, que através do recente artigo intitulado: “Amazônia: o processo de internacionalização”[6], assim se posicionou sobre esse preocupante tema, in verbis:
“Tenho de admitir que o maior problema que enfrentamos hoje, no que diz respeito à preservação da Amazônia e em se evitar essa pressão externa, não está tanto ligado a problemas imediatos da invasão do território nacional, mas à ausência de políticas públicas de curto, médio e longo prazos para aquela área. É fato público que a região é abandonada, que os problemas internos da Amazônia provocam o discurso estrangeiro legitimador de uma intervenção ou de organismos internacionais ou de outros países na região. [...]. Por isso, digo que mais do que problemas, do que desafios à nossa soberania externa na Amazônia, existe o problema com a nossa soberania interna, a nossa incapacidade de ter políticas eficazes para controlar essas ações predatórias. Soberania interna significa o poder do Estado legislar e fazer cumprir as leis na região. Mas não tenho observado, como disse anteriormente, uma política de desenvolvimento consistente e auto-sustentável para o Norte em toda a história da República. Ao contrário, o que se verifica é uma diminuição de políticas econômicas sustentáveis.[...]. O que tenho observado é que o Brasil necessita de estadistas do tamanho do desafio amazônico. E esse estadista, para governar o País, deve ter uma política inclusiva de uma parcela do território imensa e conflituosa, e deve ter, antes de tudo, o sentimento de que, apesar das diversidades étnicas, culturais e econômicas, somos uma nação com uma história comum, com um passado comum, com conflitos presentes que têm que ser administrados e pensados em conjunto”.
Sob um olhar mais crítico e real, surge da Europa a voz do colunista britânico Johann Hari que em recente artigo publicado no diário “The Independent” defendeu a criação de um “Plano Marshall” para salvar a Amazônia[7]. Segundo o colunista, o desmatamento das florestas tropicais – e da Amazônia – em particular, está sendo causado pelas necessidades de consumo dos países ricos. E, em resposta a essa realidade, sugere que: “Em defesa própria, os países desenvolvidos precisam criar um fundo ambicioso como o ‘Plano Marshall’ (plano americano de reconstrução da Europa aliada após a Segunda Guerra), para preservar as florestas tropicais que ainda restam e assim evitar e desestabilização drástica de nosso clima”.   
Pelo acima exposto, percebe-se que estamos diante do que se convencionou chamar de “Pax Verde”, vale dizer, uma doutrina estratégica exógena, alienígena, cuja iniciativa da USAID através de seu projeto (ABCI) segue nesse contexto de intenções ostensivas de interferência direta sobre a Amazônia brasileira, o que configura uma autêntica estratégia de guerra irregular, ou “guerra de quarta geração” (G4G), contra a soberania nacional do Brasil e seus países vizinhos amazônicos.
O conceito de G4G, que vem sendo discutido entre certos círculos militares e estratégicos da América do Norte e da Europa, se refere a campanhas em que um Estado nacional se defronta com oponentes não-estatais, como organizações terroristas e/ou criminosas ou, no caso brasileiro, ONG’s contrárias ao desenvolvimento nacional. Assim sendo, não é exagero considerar que estão em pleno curso na Amazônia brasileira ações de “quarta geração”, nas quais os territórios não são conquistados no sentido militar clássico, mas têm neutralizado o seu pleno desenvolvimento socioeconômico e conseqüente povoamento, para, em uma fase posterior, serem eventualmente declarados como territórios sem “soberania efetiva”.
Do exposto, resulta claro que o Brasil está sendo paulatinamente submetido a uma nova forma de colonialismo, com o qual a determinação de crescer e exercer plenamente a soberania interna sobre os seus recursos naturais e o seu território está sendo derrotada por interesses exógenos, alienígenas, ou seja, diferente da verdadeira vontade e necessidades dos brasileiros. A forma verbal “derrotada” se justifica porque as instituições nacionais como um todo, que se encontram débeis e abastardadas, abandonaram a missão institucional de cuidar primordialmente do bem comum e o bem-estar geral da Nação. O cidadão brasileiro e a sociedade, mesmo agredida com os escândalos que diariamente se tem notícia pela imprensa sobre os desmandos cometidos pelos homens públicos de todos os escalões do poder, devem ser despertados e informados sobre a principal ameaça que paira na atualidade sobre a Amazônia brasileira: CONVENCIMENTO DA OPINIÃO PÚBLICA INTERNACIONAL DE QUE AS QUESTÕES EXISTENTES NA AMAZÔNIA SÃO DO INTERESSE DA HUMANIDADE. Nesse contexto, as próprias Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica), cuja missão principal contida no art. 142, caput, da Constituição Federal é a preservação da integridade territorial do País (soberania externa), têm sido criminosamente sucateadas pelas crescentes e inexplicáveis restrições orçamentárias e um revanchismo antiautoritário irracional e irresponsável, contribuindo para deixar o País cego e indefeso diante dessas novas e mais sofisticadas formas de dominação, tais como: “governança ambiental”, “governo mundial”, “soberania relativa (“limitada” ou “restrita”), “soberania efetiva”, “governança global” e outras denominações exógenas, que na realidade trata-se de um “neocolonialismo” disfarçado capitaneado pelos países autodenominados desenvolvidos. Vê-se, portanto, com bastante clareza, que o grupo de países capitaneados pelos anglo-americanos e suas ONG’s servis não têm nenhum compromisso com o Brasil, com nenhum país integrante da Bacia Amazônica e atuam veladamente no sentido de que as “Terras Indígenas” (TI) e as “Unidades de Conservação” (UC), no futuro bem próximo, sejam consideradas “Nações Autônomas”, ou seja, não sujeitas à soberania do Brasil e dos países amazônicos, viabilizando assim o seu grande projeto de “internacionalização” da Amazônia.
Diante dessa preocupante situação, causa-nos estranheza que o Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Dr. Cezar Brito, em recente pronunciamento na imprensa tenha proposto a criação de um “Tribunal Internacional” para discutir questões da Amazônia, a fim de criar “... soluções definitivas para que este patrimônio do Brasil e da Humanidade não desapareça”[8]. Lamento profundamente que o digníssimo Presidente do Conselho Federal da OAB não tenha dado muita importância às sábias e atuais palavras do Almirante Otto Von Bismarck (1815-1898), ao afirmar certa vez que: “Os tolos dizem que aprendem pela experiência. Eu prefiro aproveitar a experiência dos outros.”. Em resposta ao lamentável e inoportuno posicionamento do Presidente do Conselho Federal da OAB, lembro a recente história da “Questão Kosovo” (Sérvia), onde o paulatino e crescente esvaziamento da região pelos sérvios e o crescimento da população albanesa criaram um “fato consumado”, que levou à perda total da soberania plena, pela Sérvia, sobre aquela parte de seu território. Em conseqüência do descaso da Sérvia relativa à sua soberania, houve a intervenção militar por potências estrangeiras (inclusive de soldados anglo-americanos), com o aval de organismos internacionais de segurança.
Como resposta efetiva ao grave e preocupante fato acima descrito, sugiro que as forças patrióticas da Nação – família, sociedade, escola, igrejas, Poderes da República, Partidos Políticos, Forças Armadas, entidades representativas das categorias profissionais, associações diversas etc. –, acordem para lutar pela sua soberania plena, ou correrão o sério risco de despertar mais tarde da sua letargia e, infelizmente, se defrontarem com o pesadelo de uma Nação dividida ou fragmentada.
Por fim, nunca é demais relembrar os sábios e atuais ensinamentos de Maquiavel (1469-1527), que na célebre obra “O Príncipe”, ao discorrer sobre o tema “soberania” há mais de cinco séculos, assim se posicionou: “Entre outros males, estar desarmado, significa ser desprezível”. Pensem nisso!


MIGUEL DALADIER BARROS. É Coronel R1 do Exército Brasileiro, Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e Mestre em Ciências Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO). Bacharel em Matemática e Direito (UFMA). Advogado, professor da Unidade de Ensino Superior do Sul do Maranhão (UNISULMA), autor de livros dentre eles: “Magna Carta, de 1215, Inglaterra: 800 depois” (Ethos Editora, 2015) e de vários artigos jurídicos publicados na Revista Jurídica Consulex e Revista Prática Jurídica. mdaladier@uol.com.br
            


[1] Correio Brasiliense, Brasília, domingo, 27 de maio de 2007, p. 9. Política. Leonel Rocha.
[2] Plano Estratégico da USAID para a “Iniciativa de Conservação da Bacia Amazônica” (ABCI), USAID, 06/02/2005.
[3] National Security Study Memorandum-200, NSSM-200, Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos.
[4] General-de-Exército Maynard Marques Santa Rosa, Secretário de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa. Correio Brasiliense, Brasília, domingo, 27 de maio de 2007, p. 8. Política.
[5] Al Gore e IPCC (“Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas”), ganharam o Prêmio Nobel da Paz 2007, por terem divulgado o documentário “Uma Verdade Inconveniente”. Al Gore também foi agraciado, em 6 de junho de 2007, com o “Prêmio Príncipe de Astúrias de Cooperação Internacional”, em razão de sua decisiva contribuição para o progresso na solução dos graves problemas da mudança climática.
[6] Revista do Tribunal Regional Federal da Primeira Região, Número 8 Ano 19, Agosto 2007, pp. 21/26.
[7] Capturado do site http://noticias.uol.com.br/bbc/reporter/2008/01/31ult4909u2164.jhtm. “Colunista britânico defende ‘Plano Marshall’ para salvar a Amazônia”.
[8] O ESTADO DO MARANHÃO, São Luis, 3 de fevereiro de 2008. O País, Elio Gaspari, “Internacionalismo”, p. 7.






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